VIDAS EQUIVOCADAS

DESCOBERTA CRUCIAL

A capital Belo Horizonte estava em polvorosa, afinal Octávio Mendes o solteiro mais cobiçado da sociedade mineira ficaria noivo naquela noite. Na residência dos Mendes desde o início da semana o foco eram os preparativos para o sábado, dia do noivado do único herdeiro.

            João Mendes e Antônio Oliveira eram amigos de infância e sócios de uma das mais renomadas empresas na área de construção civil, a Construtora Mendes.

Mal caiu ao entardecer do sábado e a mansão dos Mendes estava lotada de convidados.

            Na casa dos Nascimento, Carmen apressava as filhas Camila e Cilene, pois Ciro seu esposo, também empresário, proprietário do empreendimento Materiais de Construção Nascimento, estava nervoso com o atraso.

Camila não gostava de ir a eventos sociais, sempre se esquivava, na cidade além das moças que frequentavam as tardes para aprendizado em etiquetas, poucos a conheciam, não deixara que seus pais fizessem uma festa de quinze anos para apresentá-la a sociedade, preferiu que realizassem, com o valor que seria utilizado para festa, doações ao orfanato, asilo e famílias carentes; mas agora com dezessete anos seus pais lhe informaram que compareceria aos eventos, estava na hora de ser conhecida, de ter um pretendente.

Já sua irmã Cilene com treze anos, amava eventos, conhecia todo mundo, vivia ansiosa por chegar sua vez de ser cortejada, sonhava em completar quinze anos para poder dançar nos bailes. Sempre acompanhava seus pais a quaisquer eventos que fossem convidados, amava sua irmã, mas não entendia por que ela não ia aos eventos, aos bailes, se perguntava como alguém pode não gostar de festas?

            Ao chegarem à mansão dos Mendes, Camila ficou boquiaberta com o luxo do evento, achando-o deveras extravagante, diferente das demais donzelas da sociedade, gostava de ler, cuidar de plantas e animais, e realizar visitas ao orfanato e ao asilo, quando conseguia fugir das tardes glamorosas destinadas a preparar as donzelas para serem boas esposas e gerentes do lar, sim porque tinham empregados para tudo.

            Octávio cercado pelos amigos e familiares era o centro das atenções junto com Roberta Oliveira sua pretensa noiva, mas olhava ao redor como se esperasse algo que o resgatasse daquilo tudo. De repente seu coração acelerou, seu rosto corou e sentia suas mãos trêmulas e gélidas, o que estava acontecendo? Como pode ao ver alguém que nem conhece sentir tamanho descompasso. Indagaram por que estava corado e respondeu ser o calor. Discretamente acompanhava com olhar onde quer que aquela moça estivesse, se perguntando quem era?

Camila entediada das conversas sobre rapazes e moda, se afastou para o jardim buscando respirar, aquelas conversas sempre a deixava sufocada. Observando as plantas, encantada com a diversidade de flores do jardim quando ouviu: – Perdida?

Virou-se e, mesmo com a pouca iluminação do jardim, deparou com um olhar brilhante, profundo e aconchegante que a gelou por inteiro, respirou fundo e respondeu: – Apenas observando a natureza!

Ficaram em silêncio se olhando por instantes que parecia eternidade, Octávio chegou mais próximo, ela deu um passo para trás, ele sorriu e perguntou se estava com medo, ela respondeu: claro que não! Mas ele percebeu seu nervosismo, estava corada, era óbvio que sua presença estava mexendo com ela, e quando ele tocou seus cabelos ela petrificou, nunca ficara tão próxima de um rapaz como agora, e ele a beijou suavemente. Foi quando ouviram um grito, Roberta Oliveira havia visto a cena.

O acontecido foi momentaneamente abafado pelos pais dos pretensos noivos e, Ciro pela amizade que sempre tivera com João, resolveu retirar-se da festa com sua família imediatamente.

No escritório da mansão, uma séria conversa para contornar a situação, porém Octávio estava decidido, não queria ficar noivo de Roberta, os pais de ambos sabiam que eles não se amavam, era um acordo devido aos negócios. João ordenou a seu filho que honrasse o acordo celebrado entre as famílias há anos, mas Octávio disse ser impossível por sentir algo que nunca conhecera na vida e que não abriria mão desse sentimento. João enfatizou que seu filho jamais poderia ter beijado a filha de seu amigo Ciro Nascimento sendo comprometido.

A repercussão do noivado não realizado virou escândalo na sociedade mineira.

João Mendes era pressionado por seu amigo e sócio Antônio Oliveira a realizar o acordo celebrado, mantendo o patrimônio construído por ambos entre suas famílias e, por conseguinte, João cobrava seu filho Octávio a cumprir o compromisso, que não surtia efeito, pois seu filho estava decidido a lutar pelo que sentia.

Camila foi repreendida pela mãe que questionava como pode beijar um rapaz sem ter com ele compromisso e sabendo que ele está comprometido, ela explicou que não sabia que era Octávio, pois não o conhecia pessoalmente, só sabia das fofocas dos folhetins, que seu olhar tinha um brilho intenso, quando se aproximou, ela sentiu algo que nunca sentira e ao tocar seus cabelos ela não reagiu porque se sentiu imóvel, nada acontecera além do beijo.

Carmen acreditava na filha, conhecia sua índole, mas não sabia o que as fofocas poderiam causar. Prevenindo constrangimentos orientou sua filha que não fosse às aulas de aprendizado para moças.

Camila assentiu aliviada, sabia que interagir com as moças da sociedade nesse momento seria difícil e aproveitou para visitar o orfanato e o asilo onde era voluntária, mas para sua surpresa, foi informada com pesar pela direção de ambas as instituições, que seu voluntariado estava suspenso, pois um dos doadores informou que suspenderia o apoio financeiro se a deixassem ser voluntária. Voltara para casa arrasada.

Era quatro anos mais velha que Cilene, os eventos agora aconteciam e quando convidavam sua família colocavam no convite os nomes de seus pais e de sua irmã, deixando claro que não queriam sua presença. Isso não a incomodava, mas certo dia ouvira seus pais conversando preocupados com o futuro de Cilene, teriam dificuldade de arranjar maridos para elas pelo acontecido e que Cilene seria punida por algo que não fez. Entendeu que estava prejudicando sua família.

No dia seguinte, em sigilo, saiu para procurar algum trabalho, mas quando falava seu nome era como praga ninguém queria lhe dar uma oportunidade, uns com medo da reação dos pais dela e outros por causa de represaria dos Oliveira que não perdoavam quem os desagradava. Voltara para casa desapontada com tudo que estava acontecendo, sabia que a sociedade era implacável com quem não se adequasse aos seus padrões, não sabia o que fazer, mas não podia prejudicar sua família.

No dia seguinte, disse a seus pais que queria sair da cidade, se mudar, outros ares, seus pais assentiram de imediato como aliviados. Na manhã seguinte, pediram que o motorista a levasse para uma cidadezinha no interior, combinando de enviar mensalmente valores para sua sustentabilidade. Pensou no caminho que iria para algum lugar próximo, uma cidade vizinha, em alguma capital, mas não foi assim.

Octávio buscara informações sobre a família Nascimento para saber o nome da jovem que mexera tanto com ele, precisava procurá-la, mas fora advertido por seu pai que não o fizesse, já havia causado constrangimento demais à vida daquela moça e, sabia como reagia a sociedade. Decidiu então procurar alguém que fosse próximo a ela para obter informações, sem levantar alardes. Fez algumas indagações aqui e ali e descobrira que Paula era sua melhor amiga, procurou-a queria saber o quanto poderia ter prejudicado a vida dela.

Paula a priori tratou-lhe com desdém, pois ficou triste com a repercussão do acontecido para Camila, sim Camila, a moça que fizera seu coração não caber no peito, mas Octávio conseguiu convencê-la de seus sentimentos e que não a tinha procurado ainda pelo maldito acordo entre as famílias dele e de Roberta, mas assim que conseguisse dissolver esse acordo iria a seu encontro. Angustiava-se pelo que causara a Camila, mas lutaria por ela.

Paula, após o acontecido, todas as manhãs passava na casa dos Nascimento para falar com Camila, pois a tarde tinha aulas preparatórias para moças, sentia falta de sua amiga e foi à única que ainda falava com ela. Porém nessa manhã fora informada por Dona Carmen que Camila foi levada pelo motorista da família, há algumas horas, para fora da cidade onde residiria. Saiu arrasada nem tivera oportunidade de se despedir de sua amiga de infância, mas de imediato procurou Octávio para lhe dizer o acontecido.

Octávio ao saber pegou o carro seguiu estrada afora a toda velocidade para alcançá-la antes da primeira bifurcação, pois não sabia seu destino. Dentro de hora e meia conseguiu alcançá-la, pediu ao motorista que parasse, ele não obedeceu, mas Camila pediu, por favor, que parasse, queria saber o que aquele rapaz queria. Pararam, Camila desceu do carro, Octávio pediu desculpas pela repercussão do beijo, mas não se arrepende de tê-la beijado pois foi o momento mais intenso de sua vida, de sentimento puro que jamais vivera antes, queria ficar com ela e desposá-la.

Camila ouviu tudo como se ouve a mais bela canção, mas ao pensar na sua família, na sua irmã, lhe disse que o melhor era que honrasse o compromisso da família e a esquecesse. Entrou no carro e seguiu seu destino.

Octávio ficou por algum tempo parado, sem rumo, mas se recompôs e voltou para casa arrasado, trancou-se no quarto e permaneceu assim por semanas até decidir procurá-la novamente. Foi ao encontro de Paula para saber notícias e, o que ela disse o deixou chocado, pois Camila fora embora para não manchar o nome da família e dar oportunidade a sua irmã de encontrar um bom esposo, já que ela estava manchada por um beijo e receava que seu pai tivesse prejuízos financeiros se ela não sumisse.

Octávio ficou pensativo, precisava verificar como um beijo tomara proporções tão gigantescas e para isso decidiu aceitar a oferta de participar da empresa do pai, algo que a família queria há muito tempo. Descobriu que a Construtora Mendes era a principal cliente do empreendimento Materiais de Construção Nascimento, entendendo o receio de Camila, ouviu uma conversa entre seu pai e o sócio Antônio Oliveira, onde Oliveira disse que é necessário na vida tirar os obstáculos do caminho como nas construções.

Entendia pouco, quase nada do ramo de atividade da empresa de seu pai, então para entender melhor resolveu cursar engenharia civil e administração, deixando seus pais radiantes de felicidade, afinal aquele play boy de vinte anos, que só queria farra e mulheres, estava crescendo, o que não imaginavam era o motivo: Camila.

Octávio prometera aos pais que um ano depois de formado e se inteirar sobre a empresa noivaria e se casaria com Roberta.

Foi para capital onde passou cinco anos, ao voltar formado assumiu na empresa do pai, cargo de Diretor tendo acesso aos documentos, contratos, participava de todas as reuniões.

Percebeu algo nítido que não observara, o padrão de vida de sua família sempre fora bom, mas não esbanjavam, já o sócio se gabava de seu poder financeiro, ostentava e gastava muito em viagens com a família, principalmente para o exterior.

Roberta, sua prometida, nos últimos cinco anos, viajara pelo mundo acompanhada por sua tia, quase não ficando na cidade. Sua tia era irmã de seu pai, viera morar na sua casa há seis anos quando ficou viúva e sem filhos. Sua mãe ficara para cuidar da educação de sua irmã caçula.

Camila morava numa cidadezinha do interior onde nem escola tinha, mas não reclamava, passava seus dias cuidando das plantas, animais, ajudando nos afazeres da casa e lendo. Quem a acolheu foi um casal de idosos que trabalharam na sua casa por muito tempo e, quando sua irmã completou onze anos pediram para sair, queriam comprar um pedaço de terra e, terminarem de criar seu filho; seu pai em gratidão lhes dera um sítio e valor em dinheiro, para começarem uma nova vida.

Gratos aos seus pais, Severino e Maria aceitaram de bom grado recebê-la, até porque a amavam, e sabiam como era carinhosa com todos indistintamente.

Nas redondezas do Sítio Esperança havia casas, outros sítios, muitas crianças e nenhuma escola, Camila decidiu ensiná-las a ler e escrever, com ajuda de Severino e Maria, que organizaram num galpão que havia na entrada do sítio, mesas, cadeiras e uma lousa improvisada.

Nesses cinco anos fora poucas vezes ao centro da cidadezinha, apenas para comprar materiais que julgava necessário para as crianças que ensinava. Havia rapazes na redondeza que achavam Camila bonita e boa moça para casar-se, mas ela não se interessa por nenhum deles. Pegava-se, por vezes, perdida em seus pensamentos e naquele beijo que complicou a vida de sua família e a fez vir embora, a lembrança daquele beijo aquecia seu coração, mesmo sabendo que Octávio era fanfarrão, mulherengo e comprometido. 

Octávio continuava com suas investigações a respeito da empresa e dos ganhos financeiros de Antônio Oliveira, conseguiu argumentos suficientes para que seu pai solicitasse uma auditoria na empresa, que Oliveira achou absurdo e desnecessário, ficando nitidamente nervoso.

A família Nascimento comemorava o noivado de sua filha caçula e casamento em seis meses, compareceram ao evento os Mendes, os Oliveira e toda sociedade mineira. Octávio fora na esperança de ver Camila, pois já havia passado cinco anos e, para seu desengano ela não estava presente. A família agia como se ela não existisse, nas conversas e comunicados à sociedade ela era excluída. Octávio e Paula se viram, mas se cumprimentaram de longe.

Nas semanas seguintes o clima ficou tenso na Construtora Mendes, até descobrirem e provarem que Antônio Oliveira há anos desviava recursos, pondo fim à sociedade de uma vida toda.

João Mendes adoecera e a família pensou ter sido pela descoberta, por ter perdido seu amigo de infância e parceiro de vida, tinham construído juntos a Construtora, João vinha de família rica, com maiores posses que a família de Antônio, a sociedade era 60% de João Mendes, 30% de Antônio Oliveira e pasmem: 10% de Ciro Nascimento.

Ninguém sabia que Ciro Nascimento tinha participação na Construtora Mendes, João contara que em determinada época passaram por dificuldades e Ciro ao saber procurou-o e ofereceu ajuda em forma de empréstimo, porém João não aceitara e achou melhor negociar 10% de suas ações.

João Mendes estava doente há anos e não disse à família, motivo pelo qual pressionava tanto Octávio para se fazer presente na empresa e por isso o casamento era importante, para que o filho tomasse responsabilidade, assumisse a empresa, crescesse, mas com os acontecimentos, João liberou o filho do compromisso de se casar com Roberta Oliveira, pedindo que não denunciasse Antônio, o fim da sociedade já era o suficiente para puni-lo, ele não fora um sócio digno, um homem de caráter, mas pensava em sua esposa, filhas e irmã e, em benefício delas não queria que fosse para a cadeia.

Octávio Mendes ficou aliviado e confessou para seus pais que fizera as faculdades, foi trabalhar na Construtora, tudo para se livrar desse compromisso, porque não importava para ele o que falassem, ele sabia há algum tempo, que era amor o que sentia e sente por Camila Nascimento, desde a primeira vez que a viu naquele evento e, tudo que aconteceu com ela foi provocado por ele e se sentia responsável, agora era hora de corrigir essa situação. Falou das ameaças que seu pai e Antônio fizeram a Ciro, mesmo ele sendo também sócio da empresa, que só descobrira a composição da sociedade com a auditoria.

João Mendes solicitou a Ciro Nascimento que viesse até sua casa e, pediu desculpas a ele por tudo que aconteceu: a atitude de seu filho no evento do suposto noivado, sua postura de afastamento social entre suas famílias. Reagiu de forma inadequada com alguém que o ajudou no momento crucialmente difícil de sua empresa. Ciro disse entender sua postura, que eles deveriam ter conversado e esclarecido as coisas, que nesse caso ambos, por orgulho e influência da sociedade, agiram de forma inadequada, se reconciliando.

Octávio ao saber da conversa entre seu pai e o pai de Camila, informou a seus pais que agora não havia impedimento, iria buscá-la onde estivesse para se casarem e serem felizes. Seus pais assentiram afinal o casamento que queriam para ele, achando ser a melhor escolha, revelou-se um grande equívoco.

Octávio se arrumou e foi à casa dos Nascimento, falou com Ciro e sua esposa Carmen sobre suas intenções, de seu amor por sua filha desde que a viu pela primeira vez, que ela não teve culpa, foi ele quem a beijou, foi para São Paulo, cursou duas faculdades a fim de entender melhor os negócios da Construtora, fez o que pode até conseguir provar as verdadeiras ações de Antônio Oliveira, a fim de se livrar do compromisso que sua família o impunha, agora estava livre, fizera tudo só para ficar com Camila, desposá-la, e pediu o endereço de onde estava.

Os pais de Camila deram-lhe uma bronca por ter beijado Camila sem ter compromisso com ela e sendo comprometido com outra pessoa, que essa atitude a afastou de seu lar, de suas amizades, de sua família, mas reconheciam o esforço que fizera para salvar a Construtora Mendes, para estar livre do compromisso que tinha, se tornando de play boy em um homem digno e, apesar de tudo estavam felizes pela possibilidade de ter a filha de volta à casa, autorizaram que ele fosse a sua busca e lhe deram o endereço, mas advertiram que há anos Camila não dava notícias, então não poderiam se comprometer, por não saber se ela estava comprometida. 

Octávio gelou, sentiu seu corpo trêmulo, nesse período todo ele não imaginou a possibilidade de Camila está com outra pessoa. Ao sair convidou Ciro para participar mais ativamente da Construtora, não só ser sócio, como assumira a presidência gostaria da participação ativa de todos os acionistas. Ciro assentiu e aceitou o convite.

Chegando em casa, foi para seu quarto, não jantou, deitou-se e não dormiu. Ao amanhecer Octávio partiu para o Sítio Esperança chegando no dia seguinte ao entardecer, foi longa viagem, mas estava apreensivo e radiante pela possibilidade de rever Camila.

Ao passar pela porteira do Sítio Esperança sentiu seu coração acelerar, viu um galpão à beira da estrada e uma casa com alpendre mais à frente. Vendo movimento no galpão, desceu para perguntar sobre Camila. Quando se vira para porta do galpão perdeu o fôlego ao vê-la arrumando umas cadeiras e mesas, travou por alguns instantes.

Começou a caminhar na direção da porta do galpão, de repente, entra um menino, de mais ou menos três anos, correndo em direção dela e logo atrás um homem. Sentiu seu chão sumir, virou e saiu antes que o vissem, entrou no carro e saiu em disparada. Logo a frente tinha uns galhos de árvore que desviara quando passara, mas agora com a pressa e desatenção acabou quase se acidentando só ouvindo um estouro, eram seus pneus que estouraram.

O barulho fez Camila e Joaquim irem a socorro do viajante.

Camila teve grande surpresa ao se deparar com Octávio, que não sabia o que dizer, porque estava ali.

Octávio não teve escolha, apenas acompanhar Camila e o tal homem, que lhe foi apresentado por Joaquim, até a casa. A criança que vira, chamavam carinhosamente de Quinzinho e só queria o colo de Camila, ficando claro que só poderia ser seu filho, mas não perguntou.

Ao chegar à casa, Camila apresentou-o para Severino e Maria, eles sabiam do tal beijo, no dia do quase noivado, foram hospitaleiros, atenciosos e num momento que estavam a sós com Octávio, perguntaram o que o trouxera ao sítio? Ele enrolou e não soube explicar, então Maria o encarou e disse:  o motivo é Camila, não é?

Octávio corou de vergonha, abaixou a cabeça e assentiu dizendo: – Ela mudou minha vida, eu era desmiolado, fanfarrão, mulherengo e desde a primeira vez que a vi senti algo forte, inexplicável para mim na época, não tinha mais vontade de fazer o que antes me dava prazer. Quando a vi pela primeira vez sabia que era diferente, a beijei e estraguei tudo. Ela foi embora por minha causa e eu tinha que fazer algo. Fui para São Paulo, cursei duas faculdades, ficando cinco anos fora, retornei há alguns meses, fui trabalhar na Construtora do meu pai e descobri desvio de verba que Antônio Oliveira, sócio do meu pai fizera durante anos.

Além do desfalque na empresa, descobrimos que meu pai está doente, assumi a empresa, o acordo que meu pai fizera com Oliveira para que eu e sua filha Roberta Oliveira nos cassássemos, com intuito que o patrimônio da empresa permanecesse nas famílias, foi desfeito, me liberando do compromisso. Vim até o sítio buscar Camila para nos casarmos, com o consentimento de nossos pais, mas cheguei tarde, ela está casada e é mãe.

Severino e Maria se entreolharam e disseram que havia um engano em sua estória, Camila não era mãe de Quinzinho e sim madrinha, havia ajudado sua mãe Estela na hora do parto, enquanto Joaquim filho deles e marido de Estela, fora buscar a parteira.

Nesse momento Camila entra na sala e avisa que o jantar estava servido. Durante o jantar Octávio conheceu toda a família e se sentiu aliviado.

Após jantarem Camila perguntou sobre sua família, estava com muitas saudades, não se escreviam mais, só nos primeiros anos, se perguntava por vezes se eles a tinham esquecido?

Octávio sentiu uma dor no peito ao ouvir suas palavras, lhe falou que Cilene ficara noiva recentemente e que casaria em seis meses. Os olhos de Camila encheram de água, ela nem sabia, mas tentou disfarçar.

Severino e Maria entraram na sala e disseram que era hora de dormir, que haviam preparado um quarto para ele e, amanhã teriam o dia todo para colocar a conversa em dia, uma vez que tinha que consertar o carro.

Octávio agradeceu a hospitalidade e se dirigiu ao quarto, dormiu feito uma pedra, afinal dirigira 38 horas. Camila por outro lado não conseguia pegar no sono pensando na família e se perguntando o que Octávio viera fazer ali?

 No dia seguinte, quando Octávio acordou o café estava pronto na mesa e Camila estava na horta buscando verduras para o almoço. Voltando, Camila o encontrou tomando café, lhe disse que iria ao pomar colher frutas para levar como lanche para as crianças no galpão, ele perguntou se poderia acompanhá-la, ela permitiu.

No momento de ir para o galpão, foram juntos, ele ajudou-a com as crianças. Após a aula, arrumaram o galpão e, retornaram à casa, no caminho Octávio lhe contou tudo que havia contado para Severino e Maria, inclusive que furou os pneus porque saiu do galpão tonto por achar que ela estava casada e era mãe, riram juntos, por final que a amava, que viera para buscá-la para se casarem com o consentimento de seus pais.

Camila disse a ele que precisava de um tempo, tudo que ele havia feito para se livrar do acordo que o pai fizera e vir atrás dela, era muito, mas também ela deveria pensar na vida que terá ao seu lado e ele da mesma forma.

Vieram buscar o carro para consertar, disse Severino, que em dois dias ficaria pronto, enquanto isso ele ficaria em sua casa, que era bem-vindo.

Octávio aceitou e agradeceu novamente a hospitalidade e pediu a Camila que, por favor, desse uma resposta antes dele voltar para Belo Horizonte.

Nesses dois dias estavam sempre juntos, Octávio a ajudava nos afazeres e, na manhã do segundo dia Camila disse que não queria abandonar as crianças que ensinava. Ele imediatamente se dispôs a melhorar o galpão para as aulas e contratar uma professora que viesse morar nas redondezas para dar permanentemente aula às crianças sendo custeado pela Construtora através da verba destinada para projetos sociais.

Assim, Camila aceitou sua proposta para a escola, dizendo que o amava, que sempre pensava no beijo, embora tenha lhe trazido o afastamento de sua família e daqueles que tinha por amigos, lhe trouxera novos propósitos e amizades verdadeiras. Comprometeram-se em duas vezes por ano voltarem ao Sítio Esperança para reverem os amigos que a acolheram.

De volta à capital, Camila foi bem recebida por seus pais e irmã, choraram abraçados, e conversaram sobre a saudade que sentiram e os acontecimentos dos anos que estavam distantes.

Paula assim que soube da volta de Camila, ficou radiante, foi visitá-la e passaram o dia todo juntas conversando e matando as saudades. Paula estava noiva, se casaria em quatro meses e, chamou a amiga para ser sua madrinha junto com Octávio. E Camila a chamou para ser sua dama de honra.

Na semana seguinte, Octávio e Camila ficaram noivos num jantar na casa dos Nascimento na presença de familiares e amigos próximos, anunciando o casamento para dali há três meses no Sítio Esperança.

Houve mudanças significativas no Sítio Esperança, além de reformar o galpão para transformá-lo em escola, também reformou as casas dos casais Severino e Maria e, Joaquim e Estela. Quanto a Quinzinho, Camila comprometeu-se como madrinha de custear seus estudos para que ele pudesse cursar faculdade quando crescesse.

O casamento no sítio foi simples, mas com muito charme e aconchegante, sem o glamour esperado para o casamento do cobiçado herdeiro Octávio Mendes.

Compareceram de Belo Horizonte apenas pessoas próximas, as mesmas que estavam presentes no noivado.

Para a pequena cidade do interior de Minas Gerais, o casamento fora o evento do século, todos dos arredores fizeram questão de estar presentes, afinal Camila era muito querida por todos, pelo trabalho que fizera ensinando as crianças da redondeza e, agora trouxe para a pacata cidade a oportunidade de ter uma escola, a gratidão e reconhecimento era geral.

No primeiro aniversário de Camila, após ter se casado com Octávio, João Mendes disse aos presentes: – Camila, sou grato por você fazer parte da nossa família, agradeço a Deus pela sua existência e, oportunidade de saímos de nossas vidas equivocadas.

Foi o reconhecimento do patriarca da família Mendes, pela mudança genuína de seu único filho em um homem de caráter, responsabilidade e ascensão profissional, tendo por consequência a descoberta da verdadeira face de seu antigo sócio e, tudo por amor.

Tiveram três filhos criados entre a Capital e o Sítio Esperança, ensinando a eles o verdadeiro valor da vida: estar juntos daqueles que amamos.

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